terça-feira, 10 de novembro de 2009

Chuva forte lá fora. A janela aberta. Eu e CSNY aqui dentro. Sim, estamos em cinco. Não gosto de ficar sozinha quando chove.

Penso em coisas que não deram certo. De “se” em “se” vou construindo o vazio do meu quarto minguante.

Duas trovoadas. Meu cachorro apavorado, molhado e fedorento pede pra entrar. Agora somos seis, pelo menos até a música acabar.

Em tardes de chuva gosto de reler antigas cartas, tenho uma caixinha com várias. Sou do tipo que guarda palavras. Até guardanapo rabiscado. Até mensagens de celular. Até o que não foi escrito.

Nunca mais recebi cartas. Isso é um pedido.

Meu cachorro dorme. Ele não conhece significante nem significado.

Hoje leio como leria um cão se soubesse ler. Tenho vontade de pegar centenas de palavras e jogar pro alto como fazem com cartas naqueles sorteios em programas de tevê. Deixar cair, espalhar pelo chão, pelo quarto inteiro, mergulhar nelas. Não segurar nenhuma.

A música pára.

A chuva pára. Meu cachorro pede pra sair.

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sábado, 31 de outubro de 2009

Quando ele entrou no mesmo ônibus que eu e disse que não me deixaria ir sozinha, eu sabia que era mentira. Não havia sido por vontade própria, os amigos insistiram, empurraram o coitado p’ra dentro daquele 397 (Largo da Carioca – Campo Grande) imundo, criadouro de baratinhas. Não o culpo; ninguém deseja, depois de uma noite cansativa, quicar por duas horas num banco duro.
Eu sabia que era mentira, mas não pude permitir que isso manchasse a cena. Ouvi cada frase daquela mentira doce, esperei por cada uma, e, confesso, me senti mais segura. O pai que não tive. Naquele momento eu parecia ter qualquer valor para aquele homem que jamais havia demonstrado interesse em saber o mínimo que fosse a meu respeito. “Cuidado! Frágil”. Eu não quebraria com um plástico bolha me envolvendo.
Ele dormiu durante toda a viagem. Segurei seu rosto em cada freada brusca. Se eu o protegi? Não, o contrário. A realidade é pouco-quase-nada diante daquilo que ela (a realidade, ora, ela mesma) quer ser.
Me levou até a porta de casa, levou até o fim. Agradeci a companhia e dei um beijo de despedida daqueles que as pessoas que se gostam costumam dar (era minha vez de fingir). Ele nunca saberá que, no fundo, agradeci por ele ter prosseguido com aquele pequeno jogo, que poderia ter sido encerrado dentro do ônibus. Agradeci porque ele fez sabendo fazer.

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domingo, 18 de outubro de 2009

Como perdi Raquel

Raquel era tudo que eu tinha naquelas horas de rock macio. O cheiro da nuca suada, os dedos finos entre os meus. Necessidade.
Ela só sabia dançar de olhos fechados.
Eu tinha medo por ela. Medo de que ela caísse, que seus minúsculos pés não suportassem tanta liberdade. Medo que o mundo fosse cruel com Raquel.
...
A noite lá, e eu querendo tanto abraço.
A noite foi. Nada de abraço. Eu estava com medo.
...
Agora o sol das oito queima minhas vontades. Esse ônibus cheio e esse povo com cheiro de quem volta p’ra casa deixam a gente sem coração.
Eu fecho os olhos (mas ela não me vê) para enxergar o rosto de sono pesado de Raquel. Chegou em casa com dor de cabeça, apagou. “Boa noite, pequena, tenha sonhos leves”.
Abro um sorriso. Depois de tanta água, esse sol foi o melhor presente que minha cidade pôde dar àquela que tanto queria ver o mar.
E não seguro o choro.
...
Uma mão pesa no meu ombro: “moça, tá tudo bem?”

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domingo, 13 de setembro de 2009

Verão

Caneca descascada, café com leite, garrafa térmica amarelada, café bom. Tirar a nata que bóia. Cheiro bom de café bom. O menor dorme todo torto no sofá (mosquito pega de jeito, o ventilador parou de funcionar de repente). Final do ano colocar ventilador de teto. Teto em alto relevo, vazamento na casa de cima, chão da sala de cima todo quebrado. Os homens estão consertando. O vizinho chega, pão e a margarina, foi rápido, de bicicleta. O menor dorme, mamadeira na mão, suco de groselha, que pinga no peito. É grande pra mamadeira, não larga, vai ficar com os dentes tortos. Os homens descem, tomam banho de mangueira no quintal e entram molhados, levam esporro. Ninguém dá valor ao trabalho dela! Vai sumir um dia, largar tudo, casar com homem rico, é bonita. Mas ela fica. A mesa posta, margarina e brinquedos do menor. Os homens de pé, café puro, copo americano. Ela sentada toda elegante, saião preso no busto e tinta secando no cabelo (é a mais bonita do bairro, o Gomes disse), corta meio pão, faca cega, tá de dieta, perder barriga, melhor que sobra mais, os homens comem muito e continuam magros. Ela, primeira golada, café com leite frio já, chamam no portão, ela, é Angélica, veio pegar esmalte emprestado. Angélica senta no sofá, tá gorda, interrompe um sonho. Mais um copo, menos um pão, ela tem que fazer as contas. O vizinho liga a tevê, pastor pregando, tevê abençoando o lar, ela fala baixinho “glória a Deus” pra não acordar o menor. Deus empurra o sol. Hora dos cupins, tem que desligar a tevê, uma pena, apagar todas as luzes, janela não fecha, vidro quebrou. Silêncio, cigarra lá fora. Suor. Suor. Escorre na frente da orelha, salpica o buço, mela o sovaco, deixa até a bunda molhada. Cheiro de café, cheiro de suor. Final do ano: ventilador de teto.

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domingo, 30 de agosto de 2009

"Mais um desabafo" ou "Acho que esse blog vai virar um diário" (aff)

Perdi algo hoje como se perde um dente de leite. Algo irrecuperável.
Hoje sou um balão de gás sem conteúdo. Um balão esvaziado de verdades. Um balão roxo de falta de ar.
Hoje, entrei no que chamam de escuro.
No escuro, muitas coisas são iguais se você não sente o cheiro. No escuro é mais fácil escolher (a chance de erro é maior quando o toque é impuro).
Se fecho os olhos, pronto, tudo acaba. Tudo. Por exemplo, a queimadura do meu dedo anelar pára de incomodar (o que significa economia de manteiga).
Quando fizer frio, darei uma lambidinha no dedo queimado, pra pegar de volta a minha ardência. Mas isso fica pra depois. Hoje, quero a possível serenidade; mesmo que a certeza seja menor que balão murcho e a culpa maior que zepellin.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Coisas para eu pensar numa noite de sexta-feira chuvosa

- Hoje pode ser que seja tarde.

- Estar só não é o maior perigo.

- Comer aquele biscoito que parece tirinhas de colchão velho já não adianta.

- Preciso de colo e de um soco bem no meio do nariz que me faça dormir pelo menos umas 48 horas.

- Se eu tivesse um filho iria ao seu ouvido falar de amor. Se.

- Eles estão sãos agora, em algum lugar. Eu queria estar perdida, mas estou bem aqui.

- Meu coração pode não ser de jagunço, mas é maleável. Torço e distorço.

- Falta tanto pra daqui a pouco que meu estômago reage toda vez que lembro.

- Me tornei um conta-gotas na janela do meu quarto minguante.

- Acho devo escrever um auto-ajuda.

- Preciso pedir perdão por tudo isso.

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domingo, 26 de julho de 2009

Moreno olha p’ra mim, depois de cansar de lamber meu copo. Moreno é meu ombro canino.
— Moreno, chega aqui, te contar...

Era uma cidadezinha daquelas de cenografia, tudo pequeno e colorido. Charretes cambaleantes, homens sem pressa, cães de rua mostrando língua, céu limpinho se escancarando.
Eu e um amigo caminhávamos e falávamos de lua.
E, então, ela. Ela desconhecida, ela sozinha, ela à noite, de chapéu e cigarro na mão.
Fui direto ao ponto: quer companhia?

Gosto de andar sozinha - foi a resposta.
Ela passou por mim de cabeça baixa e não entendi. Depois pensei que era por causa do chão de pedras, p’ra não tropeçar.
Quase na esquina, uma música me chamou atenção. Eram dois velhos tocando um blues gasto na porta de um bar.
Sentada na calçada, a menina de chapéu.

Acendo um Marlboro vermelho pela primeira vez em anos. Pego mais uma cerveja e proponho ao Moreno que brindemos às imagens que ficam.
Durmo. Ela bem na minha frente, só de chapéu.

Acordo. Moreno me lambendo a cara.


MDR

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segunda-feira, 6 de julho de 2009

6 de julho de 2009

Era p'ra eu estar estudando p'ra prova de amanhã agora, mas preferi ler Ana C.

Isso tem a ver com sentimento de impotência. É normal, acho, sentir isso quando passam a gente p'ra trás.

(Não costumo escrever p'ra desabafar, mas agora foi isso sim). E não me sinto mais leve.

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"bão balalão, sr. capitão, tirai esse peso do meu coração"

À G.
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Uma apagou, ficou com cara de sonâmbula. A outra se tornou um cacto. Morriam e matavam, cada uma do seu jeito. Eu morri nas mãos de uma delas, morri só por um dia. A outra matou quem sempre esteve aqui; e isso fica eterno. Mas a lágrima que amarela é a mesma que faz. Isso, faz. (círculos na poça em volta da gota que cai).
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Eu penso no que não fui e me sinto andorinha. Ela não sei se pensa e nem deveria pensar.
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Que ela fique ela, que cochile, que não sonhe.
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Que elas sejam nó, que desfaçam em qualquer [tic-tac]...que voem depois.
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Não desejo dor, não abro bocas, olhos, abraços que não posso fechar. Não abro nem fecho. E mesmo que o domingo dure, mesmo que a mãe não ilumine, mesmo que haja tanto peso, mesmo...espero aquele cotovelo no meu antebraço antes do final do filme, pra ficar tudo certo.
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Mas mesmo que a certeza desabe doce e dura como rapadura...há um risco coral no céu e isso é tão imperdoável quanto o mal que me veio naquela voz.
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Não, não esqueço; porque não era ela, porque não seria eu.

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sábado, 20 de junho de 2009

Pessoas lindas,
desculpem-me por eu ter sumido de vocês. É que sumi de mim também.

Frase de vilão no final do filme: eu voltarei!

E, claro, obrigada pelo carinho; principalmente o daqueles que puxam minha orelha quando demoro a postar.

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