Pessoas,
primeira coisa: isso tudo aqui faz uma baita falta, esse espaço foi muito importante pra mim.
Segunda: é o fim pra esse blog.
Terceira: vocês podem me (re)encontrar em:
http://www.carocodecaja.blogspot.com/
Um abraço em cada um.
domingo, 15 de maio de 2011
domingo, 5 de setembro de 2010
Notas sobre a tia morta
Rompimento do intestino grosso, disseram. Adiaram o enterro por causa do fedor. A barriga, e ela toda, muito inchada. "E se não couber no caixão?". "Bruna, você não tem coração". Eu não tenho coração, eu devia chorar. "Mas e se não couber no caixão?"
04/09/10
04/09/10
domingo, 25 de julho de 2010
Pecando também aqui (pra quem ainda não leu)
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Pecados (sete micros)
Orgulho
Abaixo a cabeça, o sangue pinga na letra redonda (a tal carta). Borra vermelha sobre fundo falso, minha tela mais viva.
Inveja
O desgraçado tão calmamente lambe o próprio saco, depois levanta os olhos pra mim como se me desafiasse a fazer o mesmo. Mas eu, que, apesar de curvo, mal consigo olhar pra baixo sem sentir a nuca retrair, perdi de vista o meu, esquecido entre os pelos longos e embaraçados, sobre os quais descansa um pedaço de carne flácida, meu pau indolente. “Cachorro filho da puta, sabe como humilhar um velho”, digo rosnando, minha boca salivosa.
Ira
Ela enrosca um fio de cabelo no meu mindinho. O fio ruivo faz um torniquete no meu dedo. Ela me quer mutilado, ela me quer incompleto.
Indolência
Afundo as unhas nas minhas coxas e arranco um pedaço da casca dura que brotou sobre minha pele. Surgem pontos vermelhos que crescem. Vejo pouco. Meus olhos foram abraçados por véus de poeira. Mas os pontos vermelhos crescem, na carne branca que, antes, escondia-se sob a casca.
Avareza
“Não dou”, ela diz.
Gula
Nunca passei fome, mas é como se passasse. Esconda essa nuca melada de suor, ou sua cabeça penderá sem metade do alicerce.
Luxúria
Não acreditava no papo engana-trouxa de amor sem sexo. Era uma mulher e tudo o que queria era ser vista como tal. Foi por isso que ela empinou o tronco e, com o dedo indicador como um pêndulo inverso disrítmico na direção do nariz dele, encheu a boca para dizer:
— não preciso de um homem que me ame
[pausa]
preciso de um homem que me coma com vontade.
sábado, 24 de julho de 2010
Divulgando:
Marcelo Novaes pergunta, Bruna responde (rs): http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/07/marcelo-conversa-com-bruna-mitrano.html
Marcelo Novaes pergunta, Bruna responde (rs): http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/07/marcelo-conversa-com-bruna-mitrano.html
sexta-feira, 9 de julho de 2010
grito noturno e confissão
não durmo há três noites por causa de lembranças da infância. se eu dormisse, certamente teria pesadelos. tenho medo de, mesmo em sonho, voltar a ser criança. não acredito em reencarnação não por não acreditar, mas por necessidade.
sábado, 19 de junho de 2010
Asco
Tinha um rosto repulsivo. Comia como um animal, babava. Crosta amarela no canto da boca. Filetes de coriza despencando do nariz, caindo sobre o pão com carne, que ele mastigava com poucos dentes. Olhos fundos, melados. Barba crespa, criadouro de pequenos insetos. Olhá-lo era quase insuportável.
Eu observava o homem imundo comer quando senti um incômodo na testa, dei um tapinha, era uma mosca. Estranhei a presença do díptero ali. Curioso, peguei o espelhinho na mala. E então vi: aquele rosto repulsivo era meu.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Toda criança carrega (suporta) um grande desejo. O meu era matar pai e mãe.
Como, naquela época, eu ainda não tinha essas unhas amoladas, pedia ajuda a Deus: “por favor, permita que eles não voltem. Que o carro bata, exploda, caia num rio”.
Ah, alívio, sim, seria.
Estancaria o choro. Eu riria riso aberto, tomaria banho de chuva, andaria curvada e comeria brigadeiro de manhã. Colheria estrelas e cajá-manga pro jantar. Teria, pra sempre, meu útero vazio de pau de pai. E minha cara já não arderia de mão de mãe.
Liberdade, a libélula que entra pela janela.
Eu nasceria, sem meus pais.
Como, naquela época, eu ainda não tinha essas unhas amoladas, pedia ajuda a Deus: “por favor, permita que eles não voltem. Que o carro bata, exploda, caia num rio”.
Ah, alívio, sim, seria.
Estancaria o choro. Eu riria riso aberto, tomaria banho de chuva, andaria curvada e comeria brigadeiro de manhã. Colheria estrelas e cajá-manga pro jantar. Teria, pra sempre, meu útero vazio de pau de pai. E minha cara já não arderia de mão de mãe.
Liberdade, a libélula que entra pela janela.
Eu nasceria, sem meus pais.
domingo, 23 de maio de 2010
Seu nerd otário, nos vemos na saída. ASS: Beto – era o que dizia o bilhete que Tavinho amassava, as mãos trêmulas.
Beto, um menino gordo e alto demais para a idade que tinha, era o briguento da escola. Tavinho era o oposto: miúdo e magricela, fazia o tipo bobalhão de óculos.
Tavinho precisava fugir.
- Professora!
- Diga, Tavinho.
- Posso ir ao banheiro?
- Pode.
Caminhava depressa quando
- Ei! Volte aqui, rapazinho.
- O que foi, professora?
- Pra que a mochila?
Ficou um tempo parado em frente ao espelho do banheiro. Tentava elaborar um plano. Antes que tivesse qualquer ideia, viu Beto entrar. Não esboçou nenhum movimento. Viu, pelo espelho, o grandalhão se aproximar por trás. Levou uma chave de braço.
- isso é pra você deixar de ser babaca.
Tavinho sentia como se uma pedra de gelo deslizasse pela espinha. Não reconhecia aquela sensação. Não era somente medo, era também prazer.
Beto mordeu o lóbulo da orelha do seu pacato adversário, tirou sangue.
Tavinho apertou uma perna contra a outra, fechou os olhos e pediu a Deus que acontecesse qualquer outra coisa, que ficasse sem orelha, que perdesse a cabeça, mas que, “por favor”, Roberto não percebesse que ele tinha ficado de pau duro.
Beto, um menino gordo e alto demais para a idade que tinha, era o briguento da escola. Tavinho era o oposto: miúdo e magricela, fazia o tipo bobalhão de óculos.
Tavinho precisava fugir.
- Professora!
- Diga, Tavinho.
- Posso ir ao banheiro?
- Pode.
Caminhava depressa quando
- Ei! Volte aqui, rapazinho.
- O que foi, professora?
- Pra que a mochila?
Ficou um tempo parado em frente ao espelho do banheiro. Tentava elaborar um plano. Antes que tivesse qualquer ideia, viu Beto entrar. Não esboçou nenhum movimento. Viu, pelo espelho, o grandalhão se aproximar por trás. Levou uma chave de braço.
- isso é pra você deixar de ser babaca.
Tavinho sentia como se uma pedra de gelo deslizasse pela espinha. Não reconhecia aquela sensação. Não era somente medo, era também prazer.
Beto mordeu o lóbulo da orelha do seu pacato adversário, tirou sangue.
Tavinho apertou uma perna contra a outra, fechou os olhos e pediu a Deus que acontecesse qualquer outra coisa, que ficasse sem orelha, que perdesse a cabeça, mas que, “por favor”, Roberto não percebesse que ele tinha ficado de pau duro.
*****
Esperou que todos saíssem. Ligou o som no volume máximo, na casa inteira se ouvia Roxy Music. Foi até o quarto da mãe, abriu o guarda-roupa e procurou o corpete vermelho. Vestiu o corpete e o casaco felpudo. Passou o batom mais cintilante. Tirou os óculos, exagerou na sombra, no rímel e no lápis. Calçou as botas douradas trazidas de Paris (o pé da mãe era do tamanho do seu, ficaram perfeitas). Dividiu o cabelo de lado e envolveu o pescoço com um lenço para dar o toque final. Agora Tavinho era um astro do glam rock.
Mulheres e homens gritavam por ele. Vestia uma roupa deslumbrante, tinha um cabelo longo e amarelo. Tudo nele era brilhoso e sofisticado, desde os cílios postiços até o sapato plataforma. No palco, luzes néon, plumas para todo lado. Paetês caíam do céu, grudavam na pele suada. O mundo era um imenso pote de glitter. E a música era ele, apenas a voz dele chegava aos quatro cantos, à via Láctea, ao universo.
O show durou pouco. Precisava restabelecer a ordem, limpar a maquiagem. Quando seus pais chegassem, nada poderia estar fora do lugar, nem um grão de purpurina. Aos doze anos, sabia como as coisas funcionavam. Era necessário manter a decência, mesmo que isso significasse ignorar o desejo que lhe inflamava o ventre.
Mulheres e homens gritavam por ele. Vestia uma roupa deslumbrante, tinha um cabelo longo e amarelo. Tudo nele era brilhoso e sofisticado, desde os cílios postiços até o sapato plataforma. No palco, luzes néon, plumas para todo lado. Paetês caíam do céu, grudavam na pele suada. O mundo era um imenso pote de glitter. E a música era ele, apenas a voz dele chegava aos quatro cantos, à via Láctea, ao universo.
O show durou pouco. Precisava restabelecer a ordem, limpar a maquiagem. Quando seus pais chegassem, nada poderia estar fora do lugar, nem um grão de purpurina. Aos doze anos, sabia como as coisas funcionavam. Era necessário manter a decência, mesmo que isso significasse ignorar o desejo que lhe inflamava o ventre.
*****
Hoje Tavinho é doutor Otávio, advogado. Tem quarenta e cinco anos, dois filhos e uma situação financeira estável. Não fuma e bebe pouco. Gosta de jogar boliche e de fazer compras com a esposa. Diz que, sim, é um homem feliz, tem a vida que sempre sonhou.
Sente orgulho de não ter tido o mesmo fim de Beto, seu colega de escola, que, já velho e bem mais magro, se apaixonou por um gringo estiloso e foi morar no subúrbio de Londres. Otávio sempre fala que cada pessoa tem o que merece.
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(Qualquer semelhança com o filme Velvet Goldmine não é mera coincidência)
sábado, 22 de maio de 2010
Só queria contar pra vocês, assim meio de qualquer jeito, uma coisa que aconteceu...
Depois do evento, fui pra um bar com um amigo e quatro desconhecidos que em nada pareciam comigo. Desses quatro a única coisa que eu sabia era que eles se consideravam mais importantes que eu. Isso eu soube naquela noite.
Música ruim, papo chato. Estava prestes a sair correndo quando ele apareceu pra me salvar.
– Desculpa atrapalhar os senhores, é que...
– Não, obrigada, a gente não quer – disse a de sobretudo cinza.
Era um guri mirrado, desbotado. Não estava maltrapilho, nem cheirava mal. Ia embora quando eu:
– Ô, garoto, volta aqui. O que você ia dizer?
– É que eu podia tá...
– Sim, matando, roubando, pedindo esmolas. Mas você não tá fazendo nada disso, né? O que é então?
– Sei fazer um monte de coisa com latinha de refrigerante, a senhora quer ver?
– O que você faz de mais bonito?
– O coqueiro.
– Então vou querer um coqueiro bem caprichado.
A tal de sobretudo cochichava com a ruiva de chapéu bacana. As duas se afastaram um pouco de mim, para dar espaço pro guri (ou pra fugir?). Meu amigo disfarçava o constrangimento relembrando histórias bobas. Alguém continuou o assunto de antes, como se eu e o pequeno fazedor de coqueiros não estivéssemos ali. Voltaram a conversar alto, mas já não tinham a mesma naturalidade. Eu, no entanto, estava, finalmente, à vontade.
– Cara, que coqueirão que você fez! Onde você aprendeu isso? Não, antes me responde outra coisa: você jantou hoje? Aqui tem uma batata frita esperta. Vamos pra outra mesa?
Fomos. Ninguém ousou perguntar nada quando levantei.
Sem dúvida a melhor conversa da noite. Baita história legal a do menino. Comi batata frita também. O tempo passou e nem notei. Só quando o guri foi embora me dei conta que o pessoal não estava mais lá. Nem meu amigo se despediu de mim. Achei estranho, mas não fiquei chateada. No fundo, eu os entendo, eles ainda não aprenderam tanto quanto aquele menino.
Música ruim, papo chato. Estava prestes a sair correndo quando ele apareceu pra me salvar.
– Desculpa atrapalhar os senhores, é que...
– Não, obrigada, a gente não quer – disse a de sobretudo cinza.
Era um guri mirrado, desbotado. Não estava maltrapilho, nem cheirava mal. Ia embora quando eu:
– Ô, garoto, volta aqui. O que você ia dizer?
– É que eu podia tá...
– Sim, matando, roubando, pedindo esmolas. Mas você não tá fazendo nada disso, né? O que é então?
– Sei fazer um monte de coisa com latinha de refrigerante, a senhora quer ver?
– O que você faz de mais bonito?
– O coqueiro.
– Então vou querer um coqueiro bem caprichado.
A tal de sobretudo cochichava com a ruiva de chapéu bacana. As duas se afastaram um pouco de mim, para dar espaço pro guri (ou pra fugir?). Meu amigo disfarçava o constrangimento relembrando histórias bobas. Alguém continuou o assunto de antes, como se eu e o pequeno fazedor de coqueiros não estivéssemos ali. Voltaram a conversar alto, mas já não tinham a mesma naturalidade. Eu, no entanto, estava, finalmente, à vontade.
– Cara, que coqueirão que você fez! Onde você aprendeu isso? Não, antes me responde outra coisa: você jantou hoje? Aqui tem uma batata frita esperta. Vamos pra outra mesa?
Fomos. Ninguém ousou perguntar nada quando levantei.
Sem dúvida a melhor conversa da noite. Baita história legal a do menino. Comi batata frita também. O tempo passou e nem notei. Só quando o guri foi embora me dei conta que o pessoal não estava mais lá. Nem meu amigo se despediu de mim. Achei estranho, mas não fiquei chateada. No fundo, eu os entendo, eles ainda não aprenderam tanto quanto aquele menino.
domingo, 16 de maio de 2010
Cavalos não gostam de covardia
Chute. Outro. Coturno enfiado no meu estômago. Cuspi uma bola de sangue. Maldito dia em que saí do mato. Eu, que cresci rodeado de cavalos, nunca tinha visto tanta brutalidade. Eles chamam de seleção natural, aquela história de que os mais fortes... Pausa.
Era só mais um filhinho de papai. Conseguiu tudo que quis. Agora tinha um livro publicado.
Noite do lançamento, "noite tão esperada". Ele ria. Todos riam com ele.
No ônibus, durante a viagem de volta, eu li, enquanto ele e os outros comemoravam. Bebiam, num bar caro da zona sul, e eu fazia uma coisa estranha, detestável até, eu lia, lia em plena noite de badalação.
Não escrevia mal, mas isso era o que menos importava. Ele desejava apenas ser visto, não deseja ser.
(O cavalo quando não vai com os cornos de alguém trota forte, relincha. Não dá coice. A não ser que o babaca chegue por trás. Cavalos não gostam de covardia)
Cena inicial.
A coisa roxa espalhada no chão. “Você nunca vai conseguir passar da porta”, sussurrou o de cabelo despenteado. Eu podia ter dito “tanto faz”, mas calei. Nada daquilo tinha importância pra mim. Aquele homem, que todos conheciam ou desejavam conhecer, aquele homem branquelo e desajeitado, que perdia horas em frente ao espelho bagunçando o cabelo, não passava de um pobre coitado que nunca montou um cavalo. Eu não queria um nome. Eu queria voltar pra casa.
Era só mais um filhinho de papai. Conseguiu tudo que quis. Agora tinha um livro publicado.
Noite do lançamento, "noite tão esperada". Ele ria. Todos riam com ele.
No ônibus, durante a viagem de volta, eu li, enquanto ele e os outros comemoravam. Bebiam, num bar caro da zona sul, e eu fazia uma coisa estranha, detestável até, eu lia, lia em plena noite de badalação.
Não escrevia mal, mas isso era o que menos importava. Ele desejava apenas ser visto, não deseja ser.
(O cavalo quando não vai com os cornos de alguém trota forte, relincha. Não dá coice. A não ser que o babaca chegue por trás. Cavalos não gostam de covardia)
Cena inicial.
A coisa roxa espalhada no chão. “Você nunca vai conseguir passar da porta”, sussurrou o de cabelo despenteado. Eu podia ter dito “tanto faz”, mas calei. Nada daquilo tinha importância pra mim. Aquele homem, que todos conheciam ou desejavam conhecer, aquele homem branquelo e desajeitado, que perdia horas em frente ao espelho bagunçando o cabelo, não passava de um pobre coitado que nunca montou um cavalo. Eu não queria um nome. Eu queria voltar pra casa.