terça-feira, 10 de novembro de 2009

Chuva forte lá fora. A janela aberta. Eu e CSNY aqui dentro. Sim, estamos em cinco. Não gosto de ficar sozinha quando chove.

Penso em coisas que não deram certo. De “se” em “se” vou construindo o vazio do meu quarto minguante.

Duas trovoadas. Meu cachorro apavorado, molhado e fedorento pede pra entrar. Agora somos seis, pelo menos até a música acabar.

Em tardes de chuva gosto de reler antigas cartas, tenho uma caixinha com várias. Sou do tipo que guarda palavras. Até guardanapo rabiscado. Até mensagens de celular. Até o que não foi escrito.

Nunca mais recebi cartas. Isso é um pedido.

Meu cachorro dorme. Ele não conhece significante nem significado.

Hoje leio como leria um cão se soubesse ler. Tenho vontade de pegar centenas de palavras e jogar pro alto como fazem com cartas naqueles sorteios em programas de tevê. Deixar cair, espalhar pelo chão, pelo quarto inteiro, mergulhar nelas. Não segurar nenhuma.

A música pára.

A chuva pára. Meu cachorro pede pra sair.

16 outros delirantes

.Leonardo B. disse...

[os dias são caixas de surpresa... uma caixa de vinte e quatro lados, muitos metros de alturas improprias, muitos lados pedindo uma escalada, mas o tempo atormenta-se quando se tratam de familiares próximos: os dias]

abaixo as tempestades!
vivam os braços, abraços imensos

Leonardo B.

On The Rocks disse...

sozinha de novo?

pô...

bj

Laura Cohen disse...

que bonito...
eu abri também cartas antigas - daquelas que a gente tem medo de abrir e se lembrar, pessoas com as quais nao falamos há anos.
exatamente assim.
tem carta que eu nunca mais vou ler.
dar palavra é quase que eternizar todo mundo.

Fred Matos disse...

Crosby, Stills,Nash & Young, são sempre boas companhias, Bruna, mas a solidão geralmente é mais um estado de espírito que de corpo. Tenho certeza que você sabe disso.
O texto? Excelente como sempre.
Beijos

Fabricio Fortes disse...

Os cachorros odeiam trovoadas.. fico penoso por eles durante as tempestades e as noites de reveillon.
belo texto.
abs

romério rômulo disse...

sumida!
romério

nina rizzi disse...

e eu fico imaginando a sua voz, de chuva, a dizer tudo isso...

Anônimo disse...

culpa sua!

Ricardo Freitas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ricardo Freitas disse...

... e foi então que, sozinha, sentiu no ar uma energia estranha... Para onde todos haviam ido? O cachorro latia, foi ver o que era, havia uma carta meio fora meio dentro da caixa de correio, ela podia ver!
A chuva cessara, dera-se conta somente agora... E agora? Um arco-íris seria bom, pensou. E fez-se o arco-íris no céu... Então, o céu se iluminou, os mares se abriram, e ela caminhou pela primeira vez muito muito leve por sobre as águas...

Papoético disse...

Procuro o acaso nas tuas palavras soltas. Ele não me vem. Por que minha bocarra não segura nada. Vocifera!

Deixá-las, todas, cairem é um drama que saliva meus olhos. Como um alimento que me é lançado e, velho e cansado, deixo cair.

Relembro o passado, farejando o próprio rabo:

... cão sentado em frente ao livro, com óculos sobre o fucinho, um cigarro entre os dedos das patas, babando a raiva da aporia dos signos...

Mas não posso.

Antes, lá fora, so li a chuva. O plic! e o plac!

E mão pesada da dona partilhando meu suor dissipado.

Entro. Logo saio, por que a música parou.

BERNARDO MOURA disse...

Todos os dias são de "bom tempo"!
:)

Rogers Silva disse...

ouuu, mocinha-bruna, fica por conta da entrevista, fica, vai, fica?...
:D

Sergio disse...

Não pense, baixe. Aqui há uma versão de Wooden Ships dos CSN&Y, q espero, me deixe cheio de crédito.

http://www.megaupload.com/?d=NXVSTJYP

Bjo!

Thali disse...

muito gostosa a maneira como escreve...como passa o que esta sentindo!
-adorei!
vou visitar mais vezes,com certeza!")

Thali-

Marina disse...

Meu cachorro é minha companhia de solidões, mesmo quando só quer fugir da chuva. Melhor que ficar sem ninguém.

Beijos, Bruna.

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