Quinze pras sete. Está atrasada. Ela olha de relance o relógio largado na mesa. Olha sem culpa (ele pode esperar. 10 anos). Se pudesse, pinçaria, polegar e indicador, o ponteiro menor e giraria (com a fúria de antes), sentido anti-horário. 10 anos atrás. Se pudesse. (Como não pode, não experimenta a vontade).
Faz 10 anos que saiu do banho; cantarolando, nua, toalha enroscada no cabelo. Dez anos sentada na beira da cama, corpo ainda molhado. O vestido azul debruçado no encosto da poltrona. Distante. 10 anos.
A mão em concha contorna a base do seio esquerdo, o empurra pra cima. Uma curva pretensiosa. Estrias deslocadas. Os olhos baixos vêem além: três cânions atravessando a barriga inchada. O umbigo, largo, irreconhecível, prestes a despencar, desaparecer no breu da calcinha de renda. As pernas, as pernas ásperas, muito finas, muito brancas. Depois, onde o olho, por mais baixo, não alcança, os calcanhares cansados, rudes, fissuras permanentes. Ela.
Ele provavelmente no local combinado, aflito, atento ao celular. Ele magro, músculos salientes, pele firme, fresca. Dezenove anos. Quinze pras sete. Sete em ponto. 10 anos.
No espelho do guarda-roupa, o vestido muito colado exibindo segredos. Uma década como um muro largo entre o jovem que espera e a mulher de 29 que. O vestido no chão, nenhuma ameaça. O segundo comprimido. O segundo que empurra o ponteiro. O sono: nocaute. Cabeça afunda no travesseiro.
Ele pode esperar.
terça-feira, 30 de março de 2010
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17 outros delirantes
as coisas que você escreve são maravilhosas... não perco uma.
Nem é preciso pedir pra que eu apareça. Nem mandar o link, que eu sei de cor. Todo o resto pode esperar...
Congrats, Bruna. E apesar de o comentário ser clichê, é só pra te dizer que atendi ao pedido. Já que, na verdade, como já bem deves saber, nunca tenho nada a comentar. Porque o que escreves me deixa sem palavras. Always.
"ele pode esperar. 10 anos"
Tá certo que de 24 de Janeiro a 30 de Março não são 10 anos, mas é tal qual para quem gostar de ler seus contos, eu entre tantos.
Muito bom, Bruna.
Boa Páscoa.
Beijos
Lindíssimos contos Bruna, meus sinceros aplausos.
Abraços
Seus textos, sensacionais como sempre.
Estou de volta.
Acho que sim.
10 anos em 10 minutos... é suscinto e revelador; fica o gosto do que fora e do que poderia ser... como se cada frase exprimisse o destino trançado em dezenas de meses... tempo, tempo, tempo... Adorei o enredo e a construção... poderia ser 40 anos assim ficaria mais tempo lá dentro... beijo.
Às vezes, o tempo é tão relativo...
Como sempre, conto de primeira qualidade. Beijos, Bruna.
Te odeio, mas me curvo a genialidade do texto...
19 de Abril de 2010: dia em que eu soube: sim, alguém me odeia.
Anônimo, mesmo com ódio, obrigada por me ler, obrigada mesmo, sem ironia(pessoas que me amam nunca entraram no meu blogue). Aliás, ler com ódio deve ser orgástico.
Continuo te odiando, mas admito que receber um elogio de quem nutre esse sentimento por você é um mérito. Ao menos é de uma sinceridade que você nunca vai encontrar em alguém que te ame.
A realidade e suas brechas...o tempo e suas representatividades!
Belo texto
Ora, não se odeiem.
Eu, por exemplo, não te odeio, só te acho uma garota talentosa, repetitiva e de belas sobrancelhas.
Bacana... Muito talento você tem... Parabéns.
Uma ótima semana pra você, menina.
Vê se põe texto novo aqui.
Beijos
onde andará bruna mitrano?
forte são sua palvras moça pequetitita
bjs e boa semana
Muito bom. Rítmico. No que pontua, adensa. Sôfrego como uma espera beirando inércia. Passagem. Tempo que escorre.
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