Chute. Outro. Coturno enfiado no meu estômago. Cuspi uma bola de sangue. Maldito dia em que saí do mato. Eu, que cresci rodeado de cavalos, nunca tinha visto tanta brutalidade. Eles chamam de seleção natural, aquela história de que os mais fortes... Pausa.
Era só mais um filhinho de papai. Conseguiu tudo que quis. Agora tinha um livro publicado.
Noite do lançamento, "noite tão esperada". Ele ria. Todos riam com ele.
No ônibus, durante a viagem de volta, eu li, enquanto ele e os outros comemoravam. Bebiam, num bar caro da zona sul, e eu fazia uma coisa estranha, detestável até, eu lia, lia em plena noite de badalação.
Não escrevia mal, mas isso era o que menos importava. Ele desejava apenas ser visto, não deseja ser.
(O cavalo quando não vai com os cornos de alguém trota forte, relincha. Não dá coice. A não ser que o babaca chegue por trás. Cavalos não gostam de covardia)
Cena inicial.
A coisa roxa espalhada no chão. “Você nunca vai conseguir passar da porta”, sussurrou o de cabelo despenteado. Eu podia ter dito “tanto faz”, mas calei. Nada daquilo tinha importância pra mim. Aquele homem, que todos conheciam ou desejavam conhecer, aquele homem branquelo e desajeitado, que perdia horas em frente ao espelho bagunçando o cabelo, não passava de um pobre coitado que nunca montou um cavalo. Eu não queria um nome. Eu queria voltar pra casa.
domingo, 16 de maio de 2010
Cavalos não gostam de covardia
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15 outros delirantes
cavalos e cavalos... os do mato - por incrível que pareça - costumam ser mais mansos. abraço, bruna.
Bela crônica...
as vezes me pergunto o motivo pelo qual a coragem está cada vez mais rara!
E chamam de cavalos as pessoas que agem com grosseria. Os animais são muito mais sábios que nós.
Esse é mais um daqueles muitos cavalos de quem ninguém mais lembra o nome, a pelagem, a origem.
Conheço muitos deles. Acho que faço parte deles.
Nevermind. Um dia te levo pra passear.
Besos de Victoria. =)
Seus textos estão sempre ótimos!
Tenho um texto MTO BOM sobre sobre o cavalo, o signo no horóscopo chinês, e sobre literatura tb... rsrs Depois te passo!
bjuxxx
Sua narrativa está cada dia mais elegante e rebuscada não na forma, mas no conteúdo e elaboração. Incrível Bruna. Você é uma escritora.
Bruna,
obrigado por ter deixado um comentário no meu recanto esquecido. Fico feliz que tenha gostado. Desde quando o Bule começou eu costumo aparecer sempre por aqui , mesmo que de modo silente, para ler as novidades. Gosto dos seus textos.
Um grande abraço.
R.B.
Que bom vir aqui e encontrar um texto novo, um ótimo texto, como sempre.
Beijos, Bruna
Aproveitando para comentar o seu texto, com calma, digo que cada cavalo tem seu pasto; talvez a indignação venha pq estavas a pastar no campo errado, com cavalos errados.
E que mal há em querer apenas ser visto? Não queremos isso? Todos? Os motivos podem variar, as formas, mas a vontade não é a mesma? Não sei, não quero soar como do contra. Estou apenas contextualizando.
Às vezes comentar algo é dificílimo, pois, como o Borges dizia, o problema de escrever é que o seu texto é uma coisa diferente para cada leitor. Por isso que surgem comentários aparentemente nada a ver, como este aqui.
É isso.
Um abraço.
R.B.
Não apenas os cavalos...
Oi Bruna,
Conheço muita gente que deseja apenas ser visto porque considera que só é, só existe, na medida em que é visto, em que é aceito.
Beijos meus,
Carla
Gostei da forma como constrois a tua narrativa. Palavras muito bem dispostas que vão criando imagens de intensa vivacidade.
Abraço de arte, garota.
Ricardo Bruch,
nada a ver vc dizer que seu recado é nada a ver!(rs)
Não tenho nenhum problema em ler e tentar entender as opiniões diferentes da minha.
Antes de mais nada, coloquei como "Crônica?" exatamente porque não sei o que é. É bastante real, mas não falo de algo que aconteceu comigo. Acho até que foi por isso que preferi colocar na voz masculina (claro que podia ser eu mesmo assim, eu sei, mas não foi o caso).
Não acho que tenha pasto pra todos. Enfim, esse é um assunto longo, difícil de falar por aqui.
Não vejo problema em alguém querer ser visto. Mas acho um problema sim quando esse é o principal objetivo, quando a escrita fica em segundo plano. Bom, outro assunto que daria uma longa conversa. Se quiser falar mais sobre isso, me mande um email: mundovastomundo@gmail.com
Abç!
Aos outros: obrigada pelos comentários!
E ao Ricardo Bruch também, claro.
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