Depois do evento, fui pra um bar com um amigo e quatro desconhecidos que em nada pareciam comigo. Desses quatro a única coisa que eu sabia era que eles se consideravam mais importantes que eu. Isso eu soube naquela noite.
Música ruim, papo chato. Estava prestes a sair correndo quando ele apareceu pra me salvar.
– Desculpa atrapalhar os senhores, é que...
– Não, obrigada, a gente não quer – disse a de sobretudo cinza.
Era um guri mirrado, desbotado. Não estava maltrapilho, nem cheirava mal. Ia embora quando eu:
– Ô, garoto, volta aqui. O que você ia dizer?
– É que eu podia tá...
– Sim, matando, roubando, pedindo esmolas. Mas você não tá fazendo nada disso, né? O que é então?
– Sei fazer um monte de coisa com latinha de refrigerante, a senhora quer ver?
– O que você faz de mais bonito?
– O coqueiro.
– Então vou querer um coqueiro bem caprichado.
A tal de sobretudo cochichava com a ruiva de chapéu bacana. As duas se afastaram um pouco de mim, para dar espaço pro guri (ou pra fugir?). Meu amigo disfarçava o constrangimento relembrando histórias bobas. Alguém continuou o assunto de antes, como se eu e o pequeno fazedor de coqueiros não estivéssemos ali. Voltaram a conversar alto, mas já não tinham a mesma naturalidade. Eu, no entanto, estava, finalmente, à vontade.
– Cara, que coqueirão que você fez! Onde você aprendeu isso? Não, antes me responde outra coisa: você jantou hoje? Aqui tem uma batata frita esperta. Vamos pra outra mesa?
Fomos. Ninguém ousou perguntar nada quando levantei.
Sem dúvida a melhor conversa da noite. Baita história legal a do menino. Comi batata frita também. O tempo passou e nem notei. Só quando o guri foi embora me dei conta que o pessoal não estava mais lá. Nem meu amigo se despediu de mim. Achei estranho, mas não fiquei chateada. No fundo, eu os entendo, eles ainda não aprenderam tanto quanto aquele menino.
sábado, 22 de maio de 2010
Só queria contar pra vocês, assim meio de qualquer jeito, uma coisa que aconteceu...
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6 outros delirantes
Belo escrito...
passei algo parecido!
abraço
Bem que podíamos comer uma batata esperta nós também. Mas nunca mais te vi no CCBB, garota das sobrancelhas.
José.
Adorei a história. Que bom que você a dividiu conosco.
Parabéns pelo blog. Ainda estou me adaptando à vida de blogueiro...rs
Um beijão!!!
Roberto Nato
Linda história. Fico pensando quantas vezes agi como o pessoal da mesa, que mandou o menino embora sem nem ouvir o que ele queria.
Você não contou de qualquer jeito, como está dito no começo. Poxa, deu pra ver o menino e e uma moça, conversando em uma mesa. Legal. Você/a personagem fez a melhor das escolhas.
Obs:
Vim aqui porque li seus microcontos lá no Bule e gostei. Abraço
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