sábado, 19 de junho de 2010

Asco

Tinha um rosto repulsivo. Comia como um animal, babava. Crosta amarela no canto da boca. Filetes de coriza despencando do nariz, caindo sobre o pão com carne, que ele mastigava com poucos dentes. Olhos fundos, melados. Barba crespa, criadouro de pequenos insetos. Olhá-lo era quase insuportável.
Eu observava o homem imundo comer quando senti um incômodo na testa, dei um tapinha, era uma mosca. Estranhei a presença do díptero ali. Curioso, peguei o espelhinho na mala. E então vi: aquele rosto repulsivo era meu.


11 outros delirantes

Laura Cohen disse...

Depois de sonhos agitados, Gregor Samsa descobriu que era agora um horrível inseto.

nina rizzi disse...

além do kafka, lembrou-me também um conto de vargas llosa. e a mim também. muito bom :)

obrigada pela lembrança do ninasday, viu!
beijos.

Lenina disse...

ui! um tapa na cara!

Fred Matos disse...

Ótimo, Bruna.
Como eu supunha tem texto novo aqui e (surpresa) dois que eu ainda não tinha lido.
Espero que continue frequente. Melhor ainda: que aumente a frequência.
Agora vou ao outro.
Beijos

José Vargas B. disse...

Parece um conto de Charles Bukowski, do livro "Hot water music".

Legal se foi coincidência.

Grande abraço.

Milena Martins disse...

Ah, Bruna, my dear, às vezes acho que tudo aquilo pra que sequer conseguimos olhar, tudo aquilo que incomoda tanto a ponto de virarmos o rosto não passa dos nossos sonhos mortos, nossos desejos apodrecidos por dentro. Às vezes acho que todo o horror do mundo está em nós.

I'm just enjoying the silence...

(Victoria anda sumida. Descobriu que mudar de casa dá trabalho e toma tempo. Mas não soltou a tua mão.)

On The Rocks disse...

que coisa, hein menina?

bj

El Bailaor disse...

Bom e velho estilo Kafka!
Muito bom o texto!
Abs!!

Sylvia Araujo disse...

Ótimo seu texto, Bruna! Ainda não tinha vindo aqui! Adorei o blog.

Beijoca

Marina disse...

Li os dois últimos agora. Sempre fico sem palavras. Pena da menina do passado, nojo do homem do presente.

Mas sempre ótimos textos. Beijos!

Ricardo Novais disse...

Olá!

Que textos incríveis estão postados aqui. Este microconto é fantástico, adorei-o! Vejo teus leitores citando e citando... Confesso que apenas lembrei-me de alguma coisa de Augusto dos Anjos nele, e não em estilo kafkiano, mas sim algo original, quase confissão de alma do autor que refina-se pela ficção fantástica.

Não discordo de influências e nem de opiniões, mas creio que eu, mero leitor, tenha descoberto uma autora de fato extraordinária; só poderei tornar aqui e devorar-lhe os textos. À boa leitura.

Um abraço, querida.

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